Uma vez uma amiga me disse que uma de suas paixões era o tempo, pois ele teoricamente curava os mais difíceis problemas, as mais cruéis perdas, e encontrava as mais complicadas soluções. Doce ilusão.
Nunca concordei plenamente até mesmo porque ainda que o tempo levasse todas as dores as cicatrizes são eternas, mas ultimamente minha opinião é totalmente o oposto da dela. Esse dissimulado senso comum de que o tempo faz milagres está saturado. O tempo vem sendo meu pior inimigo, o adversário mais forte, ele sabe como me derrubar, cada vez mais a cada dia que passa. Ele tem inexplicáveis poderes de me fazer recordar o passado e me fazer querer voltar atrás, da mesma forma que me faz desejar um futuro que não posso viver. Ele sabe até fazer os segundos passarem devagar, e quando estou triste parecerem intermináveis.
O tempo tem definitivamente todo e qualquer controle sobre mim, me faz extremamente dependente, chega a ser impressionante como ele impera na minha vida, afasta aqueles que amo e aproxima os que odeio, gera mudanças repentinas me deixando sem um chão pra pisar.
O tempo faz com que tudo perca o sentido ou a importância, gestos, palavras, momentos isso sem se esquecer das pessoas. Sabe bem como concretizar meus medos quando eu menos espero. Me pega desprevenido e destrói minhas certezas. De supetão, a minha concepção permuta-se em abstração.Não,não é desacerto meu, é ele novamente dando suas rasteiras devastadoras. Ele conseguiu deixar toda minha inocência abandonada, me transformou em uma pessoa egoísta, fria, e até mesmo vingativa.Com toda volúpia,reduziu meus míseros momentos de alegria.
Quando referem-se a ele como o melhor remédio, penso que só se for uma droga para eu aprender a repudiar a mim mesmo e a tudo a minha volta. Uma solução maléfica, um veneno que é injetado diariamente em minhas veias, que penetra no meu sangue, prejudica minhas células, danifica de forma irreversível meu orgão vital, sempre depravando tudo que é possível, sempre reduzindo minhas esperanças, sempre diminuíndo o número de saídas, sempre fazendo os dias ensolarados converterem-se em tempestades arruinantes.
O tempo é perverso, não concebe uma segunda chance, os erros não podem de maneira alguma serem corrigidos. O arrependimento é inútil, improdutivo.
O tempo tem a imensurável habilidade de deixar claro que nada pode ser eterno. Ele não é confiável,não determina nenhuma garantia,sem ser da morte.
Mais devo parabenizá-lo, já me fez perder, novamente alguns minutos da minha existência.
Ele prossegue,invicto e indestrutível, dando incessantes goleadas que chegam a ser humilhantes,tanto no meu coração,como na minha razão.